Reverse Mission

A Jornada do Imigrante: Exílio, Adaptação Cultural e Missão Reversa

Pr. Lierte Soares·

Uma reflexão teológica de Jeremias 29 para a Igreja Imigrante no século XXI

Resumo

Os movimentos migratórios contemporâneos representam um dos maiores fenômenos sociais da história moderna. Milhões de cristãos vivem hoje fora de seus países de origem, especialmente no Ocidente, onde comunidades de imigrantes se tornam cada vez mais numerosas. Diante dessa realidade, surge uma importante questão teológica: a migração é apenas um fenômeno econômico e social ou pode ser compreendida como parte da missão de Deus (Missio Dei)?

Este artigo propõe uma leitura missiológica de Jeremias 29:1–14, demonstrando que o exílio de Israel constitui um paradigma para compreender a experiência da igreja imigrante contemporânea. Argumenta-se que Deus transforma o exílio em missão, chama seu povo à adaptação cultural sem assimilação, prepara novas gerações para a reconstrução espiritual das nações e utiliza especialmente os filhos de imigrantes — as chamadas Third Culture Kids (TCKs) — como agentes estratégicos da Missão Reversa na revitalização do cristianismo ocidental.

Palavras-chave: Missão Reversa; imigração; Jeremias 29; contextualização; TCKs; Missio Dei; igreja imigrante.

Introdução

Vivemos a maior era migratória da história da humanidade. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de 280 milhões de pessoas vivem atualmente fora de seus países de origem. Entre elas encontram-se milhões de cristãos que carregam consigo não apenas sua cultura, mas também sua fé.

Durante décadas, a migração foi analisada predominantemente sob perspectivas econômicas, políticas ou sociológicas. Entretanto, as Escrituras apresentam uma compreensão muito mais profunda: Deus frequentemente utiliza deslocamentos humanos para cumprir seus propósitos redentivos.

Abraão deixou Ur (Gn 12.1–3).

José foi levado ao Egito (Gn 37–50).

Israel experimentou o exílio babilônico (2Rs 24–25).

A igreja primitiva foi dispersa pela perseguição (At 8.1–4).

Em todos esses casos, aquilo que parecia tragédia tornou-se instrumento da missão de Deus.

Nesse contexto, Jeremias 29 emerge como um dos textos mais relevantes para a teologia da imigração. O profeta escreve aos exilados judeus na Babilônia e lhes apresenta uma surpreendente perspectiva: o exílio não era um acidente histórico, mas parte do plano soberano de Deus.

Essa mensagem possui extraordinária relevância para a igreja imigrante do século XXI.

Deus transforma o exílio em missão

Jeremias inicia sua carta dirigindo-se aos “anciãos que ainda restavam do exílio” (Jr 29.1). Humanamente falando, Israel havia perdido tudo: sua terra, o templo, a monarquia e a segurança nacional.

Todavia, Deus apresenta uma perspectiva radicalmente diferente.

“Edificai casas e habitai nelas; plantai jardins e comei o seu fruto…” (Jr 29.5).

Em vez de incentivar uma fuga imediata da Babilônia, Deus ordena que seu povo floresça em terra estrangeira.

Walter Brueggemann observa que Jeremias rompe completamente com a expectativa nacionalista de um retorno imediato, convidando Israel a reconhecer a presença de Deus mesmo em solo estrangeiro. O Deus da aliança não estava limitado a Jerusalém; Ele continuava governando a história também na Babilônia.

Para a igreja imigrante, essa verdade é profundamente transformadora.

Muitos vivem esperando apenas o momento de retornar ao país de origem. Entretanto, Jeremias convida o povo de Deus a perguntar:

O que Deus deseja realizar enquanto estamos aqui?

A imigração deixa de ser apenas sobrevivência para tornar-se vocação.

Adaptação cultural: nem assimilação, nem isolamento

Um dos aspectos mais notáveis de Jeremias 29 é o equilíbrio entre identidade e contextualização.

Deus nunca ordenou que Israel abandonasse sua identidade.

Ao mesmo tempo, proibiu qualquer postura de isolamento cultural.

Israel deveria:

construir; plantar; trabalhar; constituir famílias; participar da vida econômica; contribuir para a sociedade.

Esse princípio encontra eco na doutrina da encarnação.

Assim como Cristo entrou na cultura humana sem perder sua santidade (Jo 1.14; Fp 2.5–11), a igreja é chamada a viver entre os povos preservando sua fidelidade ao Evangelho.

Paul Hiebert denomina esse equilíbrio de contextualização crítica: o Evangelho permanece imutável, enquanto suas expressões culturais podem ser adaptadas para comunicar a verdade de maneira inteligível.

A igreja imigrante precisa evitar dois extremos.

O primeiro é a assimilação completa, quando perde sua identidade cristã e suas raízes espirituais.

O segundo é o isolamento étnico, quando transforma a igreja em um gueto cultural incapaz de dialogar com a sociedade.

O chamado bíblico é outro.

Somos sal da terra (Mt 5.13).

O sal transforma precisamente porque entra em contato com aquilo que preserva.

Buscando o shalom da cidade

Jeremias 29.7 apresenta um dos maiores mandamentos sociais do Antigo Testamento:

“Procurai a paz da cidade para onde vos fiz transportar e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz.”

A palavra hebraica shalom transcende a ideia de ausência de guerra.

Cornelius Plantinga define shalom como o estado de plena harmonia, justiça, prosperidade e restauração da criação segundo o propósito de Deus.

Assim, a missão da igreja imigrante não se limita ao crescimento econômico ou à estabilidade familiar.

Ela envolve buscar o bem-estar integral da comunidade onde Deus a plantou.

Isso significa servir escolas, hospitais, universidades, organizações sociais, bairros e governos locais.

A igreja deixa de ser mera beneficiária da sociedade para tornar-se bênção para a sociedade.

Neemias: um reconstrutor formado no exílio

O exílio babilônico durou aproximadamente setenta anos (Jr 25.11–12).

Durante esse período surgiu uma nova geração.

Entre ela estava Neemias.

Embora judeu, Neemias cresceu dentro da administração persa.

Dominava duas línguas.

Conhecia duas culturas.

Transitou naturalmente entre dois mundos.

Sua biculturalidade tornou-se instrumento providencial para a reconstrução de Jerusalém.

Como copeiro do rei Artaxerxes (Ne 2.1–8), obteve recursos, autorização oficial e proteção imperial para restaurar os muros da cidade.

Aquilo que parecia uma perda cultural revelou-se preparação missionária.

Os Third Culture Kids (TCKs) e a Missão Reversa

David Pollock e Ruth Van Reken definem Third Culture Kids como indivíduos que passam parte significativa de sua infância em culturas diferentes da cultura de seus pais, desenvolvendo uma identidade híbrida.

Historicamente, muitos filhos de imigrantes enfrentam crises de pertencimento.

Não se percebem completamente brasileiros.

Nem completamente americanos.

Entretanto, aquilo que frequentemente é visto como fragilidade pode constituir exatamente sua maior força missionária.

Assim como Neemias, os TCKs tornam-se construtores de pontes culturais.

Eles compreendem simultaneamente a cultura familiar e a cultura do país onde vivem.

Na igreja, isso representa enorme potencial para evangelização, plantação de igrejas, liderança pastoral, educação cristã e revitalização das comunidades locais.

A igreja não deveria enxergar seus jovens biculturais como um problema de identidade.

Deveria reconhecê-los como uma resposta estratégica da providência divina.

Missão Reversa: quando o Evangelho completa um círculo

Durante quase quinhentos anos, o movimento missionário global foi caracterizado principalmente pelo envio de missionários do Norte Global para o Sul Global.

Hoje, porém, observamos um fenômeno sem precedentes.

Cristãos da América Latina, África e Ásia estão chegando às nações historicamente cristãs da Europa e da América do Norte.

Esse movimento, frequentemente denominado Missão Reversa, não altera a essência da Grande Comissão.

Altera apenas sua direção geográfica.

Christopher Wright afirma que Deus sempre foi um Deus missionário, conduzindo a história para que todas as nações conheçam sua glória.

A migração contemporânea torna-se, assim, uma oportunidade providencial para que comunidades imigrantes participem desse propósito redentor.

Os Estados Unidos deixam de ser apenas destino migratório.

Transformam-se em campo missionário.

Três gerações, uma única missão

A igreja imigrante precisa pensar além da primeira geração.

A primeira geração aprende a língua, trabalha intensamente e estabelece as bases da família.

A segunda geração transita naturalmente entre culturas.

Ela compreende os códigos sociais da sociedade receptora e possui extraordinária capacidade de contextualização.

A terceira geração frequentemente se identifica plenamente com a cultura nacional.

Se a fé não for transmitida intencionalmente, apenas a herança cultural permanecerá.

Por isso, discipulado intergeracional torna-se prioridade missiológica.

A transmissão da fé deve preceder a preservação da cultura.

Cinco princípios para viver a Missão Reversa

A partir de Jeremias 29 e do testemunho do Novo Testamento, podemos destacar cinco princípios fundamentais para a igreja imigrante.

Primeiro, aprender a cultura antes de tentar transformá-la. Paulo observou cuidadosamente Atenas antes de anunciar Cristo (At 17.16–34).

Segundo, depender do Espírito Santo. Estratégias missionárias jamais substituem o poder prometido em Atos 1.8.

Terceiro, construir relacionamentos autênticos. O Evangelho frequentemente percorre o caminho da hospitalidade, das amizades e da vida compartilhada.

Quarto, perseverar com paciência. Em contextos pós-cristãos, como a Nova Inglaterra, a conversão costuma ser fruto de longos processos de discipulado.

Quinto, amar profundamente a cidade onde Deus nos plantou. Quem ora, serve e busca o shalom da cidade adquire credibilidade para anunciar Cristo.

Conclusão

Jeremias 29 redefine completamente a compreensão bíblica da imigração.

O exílio deixa de representar apenas sofrimento.

Torna-se espaço de formação espiritual, adaptação cultural e missão.

Da Babilônia surgiram líderes como Neemias.

Da dispersão da igreja nasceu a expansão do Evangelho (At 8.4).

Hoje, Deus continua escrevendo essa mesma história por meio de milhões de cristãos imigrantes espalhados pelas nações.

Talvez muitos tenham atravessado fronteiras buscando oportunidades econômicas.

Entretanto, sob a perspectiva da soberania divina, é possível que tenham sido enviados como embaixadores do Reino de Deus (2Co 5.20).

A igreja imigrante não deve compreender sua presença no Ocidente como um acidente histórico.

Ela faz parte da continuidade da Missio Dei.

Como Israel na Babilônia, somos chamados a construir, plantar, servir, orar e anunciar o Evangelho.

Não somos apenas imigrantes.

Somos peregrinos enviados.

Não fomos apenas recebidos nesta terra.

Fomos enviados por Deus para esta terra.

“Procurai a paz da cidade para onde vos fiz transportar e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz” (Jeremias 29.7).

Sobre o Autor

É fundador do projeto Missão Reversa (Reverse Mission), iniciativa dedicada à pesquisa, ao ensino e à mobilização da igreja global para a revitalização espiritual do Ocidente por meio das comunidades imigrantes. Atua também como copresidente do BCNE Multiplication Center, promovendo a plantação e revitalização de igrejas na Nova Inglaterra, e serve como professor de pós-graduação da Faculdade Batista Pioneira, onde leciona nas áreas de missiologia, contextualização cultural e estratégias missionárias.

Sua formação acadêmica inclui bacharelado em Teologia, Direito, Administração e Pedagogia, pós-graduação em Língua Inglesa e Administração Pública, Master of Divinity (M.Div.) pelo Midwestern Baptist Theological Seminary e Master of Theological Studies (M.T.S.) em Missões Interculturais pelo Southwestern Baptist Theological Seminary. Atualmente desenvolve pesquisas na área de missões, evangelismo e migração, com ênfase na relação entre diáspora, adaptação cultural, Third Culture Kids (TCKs) e Missão Reversa.

Autor do livro Introdução à Missão Reversa: O Círculo Completo do Evangelho, Lierte Soares tem dedicado seu ministério à formação de líderes, ao fortalecimento da igreja imigrante e à construção de parcerias entre igrejas do Sul Global e do Ocidente. Sua produção acadêmica e ministerial busca integrar sólida reflexão bíblica, pesquisa missiológica e aplicação prática, defendendo que os atuais movimentos migratórios representam uma oportunidade providencial para o avanço da Missio Dei entre as nações.

Referências

BRUEGGEMANN, Walter. A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

BOSCH, David J. Transforming Mission: Paradigm Shifts in Theology of Mission. Maryknoll: Orbis Books, 1991.

HIEBERT, Paul G. Anthropological Insights for Missionaries. Grand Rapids: Baker Academic, 1985.

LAUSANNE MOVEMENT. The Cape Town Commitment. Peabody: Hendrickson, 2011.

NEWBIGIN, Lesslie. The Gospel in a Pluralist Society. Grand Rapids: Eerdmans, 1989.

PLANTINGA, Cornelius. Not the Way It’s Supposed to Be: A Breviary of Sin. Grand Rapids: Eerdmans, 1995.

POLLOCK, David C.; VAN REKEN, Ruth E. Third Culture Kids: Growing Up Among Worlds. 3. ed. Boston: Nicholas Brealey, 2017.

SOARES, Lierte. Introdução à Missão Reversa: O Círculo Completo do Evangelho. Ijuí: Faculdade Batista Pioneira, 2026.

STOTT, John. The Message of Jeremiah. Downers Grove: IVP Academic.

WRIGHT, Christopher J. H. The Mission of God: Unlocking the Bible’s Grand Narrative. Downers Grove: IVP Academic, 2006.

WRIGHT, Christopher J. H. The Mission of God’s People. Grand Rapids: Zondervan, 2010.

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.


Sobre o autor

Lierte Soares Júnior é pastor, missionário e educador brasileiro-americano que serve na Nova Inglaterra (EUA). Enviado do Brasil como parte do crescente movimento de missão reversa, dedica-se ao fortalecimento e à revitalização de igrejas em toda a região. Atualmente é presidente das Igrejas Batistas da Nova Inglaterra (Baptist Churches of New England).